DODODO

O grupo BASA2 começou suas atividades em junho de 2020, inicialmente com o nome GEMA2 (Grupo de Estudos, Mentoria e Articulação 2). Sugestão da artista Ing Lee, de Belo Horizonte, a nova formação seguiu a metodologia de outro grupo de artistas que eu já estava mentorando. Olhar para o percurso peculiar de Ing, que não participa mais do grupo, ainda indica muito sobre essa manobra coletiva específica: o trânsito entre os circuitos da arte contemporânea e de histórias em quadrinhos/publicações independentes. Essa posição ambígua e ainda pouco assimilada por ambos circuitos, vale para Céu Isatto (Porto Alegre), Nicholas Steinmetz (Curitiba), Patricia Baik (São Paulo), Ivo Puiupo (São Paulo) e Ian Indiano (London), integrantes atuais do BASA2. Um grupo de pesquisa, suporte, experimentação e conspiração, que alterna entre, aproxima ou simplesmente trata da mesma forma histórias em quadrinhos e arte contemporânea.

Por ter surgido no início da pandemia do Covid-19, os encontros do BASA2 acontecem semanalmente de forma remota, através de plataformas de videoconferência. Essas interfaces que literalmente reúnem quadrinhos transmitindo vídeos de cabeças falando e, no caso, mostrando seus ateliers e obras, reclamando de freelas, comentando exposições em suas respectivas cidades, preenchendo editais, recomendando animes, se vacinando, passando por transformações radicais, etc. Entre updates, carinho e atenção coletivos, impulsionando a busca individual de cada integrante, desenvolvem-se projetos conjuntos, como uma exposição para um dos mais emblemáticos museus do Brasil, ou um livro de entrevistas sobre HQ/Arte (para o qual já foram entrevistados artistas como Fabio Zimbres, Rafael Coutinho e Mariana Paraizo). Ou ainda a exposição DODODO, na Gruta, primeiro desdobramento concreto do BASA2 como grupo.

DODODO é a primeira justaposição tangível, não-pixelada, da arte de cada componente do BASA2. Inclusive, até a montagem da exposição, alguns de seus integrantes nunca haviam se encontrado in situ. Mesmo se tratando de uma exposição sobre encontro, cada obra ou série de obras expostas aponta para um campo visual-narrativo particular. Tentamos momentaneamente estabilizar essa aproximação de vórtices com a expografia, mas desejamos que o público adentre em cada um desses universos, através das obras e dos quadrinhos. Como estrutura mambembe para essas forças centrípetas divergentes, compartilhamos um pouco do processo e dos bastidores do BASA2, por meio da seleção semi-aleatória de nossas anotações manuscritas particulares, realizadas durante os encontros, e agora transferidas para as paredes da Gruta.

Pra constar, a onomatopeia DODODO, o som de um cilindro gigante triturando pedras, foi encontrada por Ivo em um mangá (New Engineering, editora Picturebox, 2007) do mangaká e artista contemporâneo Yuichi Yokoyama. Vale notar que BASA, que Ian transformou em sigla para Brupo de Astudos, Sentoria e Articulação, também é uma onomatopeia (som de livros caindo) do mesmo mangá de Yuichi, encontrada anos antes por Luisa Alves Dantas, integrante do BASA4 (sim, somos uma rede transatlântica de vários grupos interconectados). O lettering DODODO utilizado na comunicação da exposição, por sua vez, foi feito pela Madri, minha filha de 7 anos. Ela mantém uma relação curiosa com o BASA2, acompanhando atentamente suas obras, mas principalmente através do que ela chama de Desenhos Malucos, que pro deleite do grupo me são entregues durante os encontros, enquanto sussurra o mais alto que consegue: “Mostra pros BASA2, papai!”.

_Lucas Velloso (curador)

 

DODODO - Zine/Poster Kit
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